Um thriller psicológico que trata de família e poder: “All Her Fault”

Baseada no romance homônimo da irlandesa Andrea Mara, publicado em 2021, e com roteiro de Megan Gallagher, a série “All Her Fault”, que lidera a audiência no Prime Vídeo, é inspirada em uma experiência pessoal da autora. Segundo relato de Mara, em 2015, quando foi buscar a filha em uma casa onde a criança passaria a tarde brincando, encontrou o imóvel completamente vazio.
Diferentemente da situação explorada na série, o pânico durou apenas alguns segundos, até descobrir que estava com um endereço antigo.

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Na série, Marissa (interpretada pela ótima Sarah Snook) é fundadora e sócia de uma empresa de wealth management e é casada com Peter (Jake Lacy, de Segredos de Família), um trader de commodities bem-sucedido. Ambos mantêm longas jornadas de trabalho e contam com o apoio de uma babá, a imigrante latina Ana Garcia, que busca o filho na escola e cuida da criança quando os pais estão ausentes.
Consumida pela angústia de não saber o paradeiro do filho, Marissa passa a se perguntar se não deveria ter priorizado Milo em detrimento do trabalho. A popular frase “Nasce uma mãe, nasce uma culpa”, hoje questionada e até rejeitada por muitas lideranças femininas, sintetiza o sentimento de responsabilidade e autocrítica que frequentemente acompanha a maternidade, alimentado por expectativas sociais, comparações constantes e pela pressão para ser uma “supermulher”.
Um dos grandes méritos da produção é oferecer uma denúncia sutil do machismo estrutural, demonstrando como o mal pode ser a flor mais colorida em um jardim de virtudes. Porém, o mais importante é que, ao final, “All Her Fault” oferece um encaminhamento interessante à indagação clariceana: haveria um meio de ter as coisas sem ser possuído por elas? A última cena da produção é representativa de saídas que não são meramente moralistas, mas éticas, para as Marissa e Jenny. Por essas e outras razões, a série é um convite ao bom entretenimento e à reflexão. Vale a pena!