ESPAÇO ALI: A Penúria da Crítica Literária

Nunca é demais enfatizar que a crítica, desde que feita em termos construtivos, é de suma importância para lapidar as arestas de algo criado ou a criar. Ela nos dá a dimensão exata de que este algo sairá perfeito, senão semi-perfeito, nunca carente do seu significado maior.
No trato, aqui, sustenta-se a questão da crítica literária que, nos tempos atuais, não se vê e nem se ouve com a frequência de estar desejosa de tão somente construir e não desestruturar no seu conteúdo ou concepção.
Tempo houve (e bem no passado), que paralelamente às obras produzidas e entregues à população pelos meios literários, havia estas críticas, trazendo uma série de advertências ou, até, pontos de vista na maioria dos casos, mas que serviam para que o autor pudesse se recompor ou repensar na sua colocação livresca. Tudo girava com um certo olhar positivo, não diminuindo o conteúdo do trabalho, mas trazendo subsídios tais para o aprimoramento do trabalho ou algo que se deixou sem uma devida citação ou explicação maior.
Assim pensando e levando-se em conta que críticos literários se raiaram nos últimos tempos, uma infinidade de obras literárias, jogadas com objetivos meramente mercantis, de somente ganhos, invadem o cotidiano, principalmente em obras de autoajuda, religiosidade, terror, entretenimentos variados, relatos biográficos sem conteúdo algum, fatos corriqueiros da vida social, etc. Tudo isso, muitas vezes sem critério algum, apenas “snobes”.
Há, na verdade, a falta do crivo literário de críticos verdadeiramente críticos na acepção exata da palavra. Por tal significado, retiro do ensaio “A penúria da crítica” – (1958), do escritor alagoano Octavio Brandão (1896-1980), alguma coisa neste sentido: “A verdadeira crítica literária e artística tem um caráter positivo, construtor e educador. Analisa o conteúdo e a forma. Investiga em que grau, em que medida, a obra reflete a vida, a luta e a realidade – em perene movimento, desenvolvimento e transformação. Descobre o que existe de novo e progressista na obra abalizada. Golpeia, nela tudo quanto for velho, retrógrado, regressivo. Contrapõe afirmações às necessárias negações”.
Em nosso meio literário, observa-se que há muitos autores, ou melhor, pseudos-autores dispostos a ganhar os louros em forma de numerário, jogando às livrarias obras sem qualquer vínculo com uma crítica honesta, concisa e respeitada, balizando o seu conteúdo e a forma. É preciso que estes não possam dominar o mercado livresco, sob pena de incorrermos em sérios riscos de retrocesso na nossa cultura. Não é porque se tenha meios financeiros para, assim, provocar uma verdadeira “enxurrada” de páginas e mais páginas sem conteúdo algum, apenas inundado o mercado de futilidades – coisas tão corriqueiras em nossos dias.
Pesa-nos, sobremaneira, sentir que “medalhões” do nosso cotidiano, se proliferem com obras sem qualquer conteúdo, apenas por desejarem os holofotes da mídia. Contudo, graças aos céus, há, na verdade, grupos e figuras seletas que contrapõem a estas investidas, com a coragem sem precedentes. São autores ainda desconhecidos que estudam, trabalham e lapidam o trabalho utilizando-se da alma e do coração – fatores importantíssimos para o aparecimento de obras grandiosas. E isto já se pode notar.
Em suma, necessitamos, nos tempos de agora, a presença indispensável do crítico literário, pois só assim teremos boas obras e de realce no seu conteúdo e na sua forma. Temos sentido que os ventos já estão soprando em direção deste ideal.
*J. R. Guedes de Oliveira – Membro Honorário
