{"id":18097,"date":"2018-03-03T06:20:42","date_gmt":"2018-03-03T06:20:42","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/?p=18097"},"modified":"2018-03-02T18:59:34","modified_gmt":"2018-03-02T18:59:34","slug":"motorrad-e-nietzsche-com-tom-jerry","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/motorrad-e-nietzsche-com-tom-jerry\/","title":{"rendered":"\u2018Motorrad\u2019 \u00e9 Nietzsche com \u2018Tom &#038; Jerry\u2019"},"content":{"rendered":"<h3><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-18036\" src=\"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/14-Motorrad-2.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"574\" srcset=\"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/14-Motorrad-2.jpg 900w, http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/14-Motorrad-2-300x191.jpg 300w, http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/14-Motorrad-2-768x490.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><\/h3>\n<h3>Grupo de jovens entram em um territ\u00f3rio proibido<\/h3>\n<h6><em>Foto Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/h6>\n<p>Passam-se uns sete, oito minutos (por a\u00ed) desde a apari\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9ditos de elenco de Motorrad sem que uma s\u00f3 palavra seja dita. Vemos um jovem encourado em jaqueta \u00e0 la Marlon Brando (em O Selvagem), Hugo (Guilherme Prates) tentando surrupiar um carburador de um ferro-velho. Tudo se passa em um sil\u00eancio que precede o esporro do susto: o grisalho dono da loja (Jayme Del Cueto) entra em cena com uma calibre .12 na m\u00e3o, disparando contra o invasor. Mas mesmo no tiroteio n\u00e3o espocam palavras. Elas v\u00e3o valer pouco neste filme, cuja abertura j\u00e1 eleva o n\u00edvel de adrenalina em uma luta do garoto para escapar dos tiros. \u00c9 uma persegui\u00e7\u00e3o entre muitas deste quase cartum de sangue e trevas, que mais parece um desenho animado\u2026 parece uma aventura do rato Ligeirinho ou o Papa-L\u00e9guas fugindo do Coiote.<br \/>\nAlgo diferente do que o cinema brasileiro faz \u2013 ou talvez de tudo o que j\u00e1 fez, mesmo na seara da aventura e do terror. O senso de novidade se faz sentir por essa aus\u00eancia de di\u00e1logo, que aponta, j\u00e1 na largada, estamos diante de um espet\u00e1culo cinem\u00e1tico: a escrita aqui n\u00e3o pelo verbo e sim pelo movimento puro e sem freios. Se quiser conferir o efeito, tem mais dele na grade do Festival Rio, onde este thriller dirigido por Vicente Amorim foi ovacionado na noite de quinta, em sua estreia nacional \u2013 antes daqui, ele passou pelo Festival de Toronto (TIFF), na sele\u00e7\u00e3o oficial.<br \/>\nVoltando ao in\u00edcio, onde vemos, sem delonga, um mapeamento do cen\u00e1rio \u2013 um Brasil mais interiorano, de pedregulhos e rios, propenso a rallys e expedi\u00e7\u00f5es &#8211; Hugo \u00e9 detido pelo velho e parece estar prestes a levar um tiro. Mas a\u00ed a c\u00e2mera de Gustavo Hadba (o fot\u00f3grafo, em seu melhor trabalho, de cores esmaecidas, turvas) se desgruda do ref\u00e9m, curiosa pela demora de o tira chegar, e fita o velho paralisado, est\u00e1tico. Por tr\u00e1s dele vem uma mulher, uma morena de olhar duro, que mexe com a libido de Hugo (com a nossa tamb\u00e9m) e, sem dizer muito, salva o rapaz e se gruda nele, como um encosto. A tal presen\u00e7a feminina ganha contornos que v\u00e3o muito al\u00e9m do desejo gra\u00e7as \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de Carla Salle, talvez o grande achado deste Festival do Rio no que tange a descoberta, pelo nosso cinema, de uma atriz vigorosa. E ela esbanja vigor. \u00c9 uma Elektra em uma Cozinha do Inferno pedregosa e \u00edngreme. O longa come\u00e7a assim\u2026 com quase 15 minutos (ou mais) de fric\u00e7\u00e3o entre sil\u00eancios e engasgos. E a\u00ed entram os demais personagens. Os bons\u2026 Ou quase.<br \/>\nHugo integra um grupo de motoqueiros, cuja lideran\u00e7a cabe a seu irm\u00e3o mais velho, Ricardo, interpretado com peso her\u00f3ico \u00e9pico por Emilio Dantas, um astro nato, com recursos dram\u00e1ticos capazes de surpreender o espectador mesmo na mais corriqueira \u2018falinha\u2019. Os demais personagens s\u00e3o vividos por Juliana Lohmann, Rodrigo Vidigal, Alex Nader e um iluminado Pablo San\u00e1bio, perfeito na pele de Tom\u00e1s, o membro do time com mais tens\u00e3o no peito, por ser o que mais tem culpas no cart\u00f3rio da vida. Mas esse cart\u00f3rio n\u00e3o vai valer muito nessa trama, pois seus ju\u00edzes aqui n\u00e3o t\u00eam conex\u00f5es com crimes do mundo organizado, o mundo da linguagem. No enredo aqui, essa turma de motoqueiros, cuja \u00fanica meta \u00e9 se divertir, acaba levando de carona a morena gatinha que salvou Hugo. E esta oferece a eles uma dica de percurso: um atalho. Ao entrarem nele, as mo\u00e7as e rapazes passam a ser perseguidos por misteriosas figuras de preto, com motocas paramentadas para cantar pneu (e matar). E eles carregam fac\u00f5es e armas brancas afins sedentas de co\u00e1gulos.<br \/>\nTem algo de \u2018O Predador (1987)\u2019, de John McTiernan, na maneira como esses motoqueiros aparecem. Amorim, em uma dire\u00e7\u00e3o precisa, estabelece uma rela\u00e7\u00e3o n\u00edtida de gato e rato entre eles e os amigos de Hugo. N\u00e3o se sabe quem eles s\u00e3o, de onde vieram, nem a raz\u00e3o de quererem matar os jovens ali presentes. Os atos s\u00e3o t\u00edpicos do Jason de \u2018Sexta-Feira 13\u2019, mas este tinha uma motiva\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida (vingar-se daqueles que o deixaram morrer, quando menino). Estes, n\u00e3o. A met\u00e1fora do predatismo, que eles encarnam, aparecem em v\u00e1rios filmes do cineasta carioca, quase sempre em figuras de ordem, ou de Poder Pol\u00edtico, que tentam silenciar os protagonistas de suas hist\u00f3rias. E, estes, quase sempre, embarcam em jornadas autistas, que parecem estar desconectadas do real. Mais ou menos como Hugo faz aqui, sem buscar entender, por exemplo, a cicatriz em seu pulso e a conex\u00e3o desta com os motoqueiros. Ele \u00e9 alheio \u00e0 verdade em sua volta, pois \u00e9 um t\u00edpico exemplar da fauna amoriniana. Nosso diretor em quest\u00e3o \u00e9 esp\u00e9cie de analista da inoc\u00eancia funcional em nosso cinema.<br \/>\nDesde sua estreia como realizador de longas de fic\u00e7\u00e3o, com o subestimado \u2018O Caminho das Nuvens\u2019 (2003), Amorim se interessa por protagonistas cuja percep\u00e7\u00e3o \u00e9 embotada por um olhar alienado (por vezes ideol\u00f3gico de mundo). Neste primeiro filme, Wagner Moura n\u00e3o olhava nada a seu redor, empenhado no objetivo de arrumar um emprego capaz de pagar a ele R$ 1 mil: mesmo que para chegar a esse trabalho ele precisasse arrastar a fam\u00edlia inteira do Nordeste para o Rio, de bicicleta.<br \/>\nMotorrad \u00e9 Nietzsche com Tom &amp; Jerry, para nos lembrar, pela cartilha do filme de g\u00eanero, que, do Pop viemos e ao Pop voltaremos. Isso se a sobreviv\u00eancia for vi\u00e1vel\u2026 A discuss\u00e3o \u00e9 sofisticada. E chega embalada por uma pl\u00e1stica viva, inquieta e\u2026 brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grupo de jovens entram em um territ\u00f3rio proibido Foto Divulga\u00e7\u00e3o Passam-se uns sete, oito minutos (por a\u00ed) desde a apari\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":18036,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15,10],"tags":[3437],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18097"}],"collection":[{"href":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18097"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18097\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18098,"href":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18097\/revisions\/18098"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18036"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18097"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18097"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/jornalnovametropole.com.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18097"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}